7.7.11

Cobrindo lembranças

Eu me enfiei debaixo das cobertas e procurei pensar no Natal. Não queria de modo algum enfrentar o meu quarto e suas lembranças. Então rodiei meu inconsciente atrás de um dia em que eu não amasse. Vi minhas tias gritarem meu nome em meio a uma montanha de presentes em volta à árvore de Natal. Ouvi meu pai dizendo para eu abrir logo e ver o que era. Eram meias. Eram ursinhos coloridos. Eram jogos de meninas. Eram roupas. E nada, nadinha que pulsasse como um coração. Não eram seres, eram inanimados e precisavam de mim para ter vida.

Voltei a lembrar que estava no quarto. Bisbilhotei rapidinho, com um dos olhos por fora das cobertas, se aquele meu retrato que um grande amor admirava estava lá. Estava. E eu estava lá sorrindo pra mim. E ele estava lá sorrindo pro retrato e pra mim. E pro retrato, e pra mim de novo. Meu coração voltou a querer me enfartar. Voltei a meter todo o meu corpo, sem deixar um nicho pro passado entrar, por baixo das cobertas. No que eu ia pensar agora? Comecei a sentir falta de ar. Calor, sede. Tentei pensar que não estava sentindo nada e voltei pro Natal. Era meia-noite. Um moço que não era parente estava na sala fazendo palhaçada para nos ver sorrir. Eu e todos os meus primos gargalhávamos com a boca aberta e a mão na barriga. A gente engasgava, a gente ficava com soluço de tanto rir do estranho que fazia caras e bocas no meio da sala da tia Naná. Eu pedia para ele fazer de novo, e ele repetia todas as caretas até meu pai vir sério me colocar para dormir. E eu dormia sem medo, procurando lembrar todas as palhaçadas daquele Natal até rir mais um pouquinho escondida debaixo das cobertas.

Mas a verdade é que já se havia passado vinte anos desde aquele Natal. Agora era meia-noite e era aniversário dele, do grande amor que era dono absoluto do meu retrato por fora do cobertor. Eu não queria ver, mas eu estava lá na casa dele, mesmo estando debaixo das cobertas. E eu havia comprado vinho e ele havia escondido o vinho em cima do guarda-roupa em meio a sua coleção de garrafas vazias. E a música que tocava era nossa. E o aniversário dele era o meu também porque juntos a gente imaginava envelhecer para sempre. Amadurecíamos a cada dia para o amor, caminhando para o nosso fim enquanto imaginávamos construir o infinito. Ele parecia ficar mais jovem quando sorria e mais velho quando me tocava. Mesmo completando seus vinte e dois anos, seus olhos eram de menos e, às vezes, de mais. Eram de criança encantada com presentes de Natal. Eram dos meus primos com a mão na barriga. Eram como os da minha tia quando me entregava as meias. Eram do moço que fazia careta. Eram como os olhos de tudo que o amor transforma, até o passado antes dele, na insistência de nos fazer lembrar, debaixo ou não das cobertas, que ele existe onde quer que a gente se esconda.


0 comentários: